(Artigo publicado na revista “O Cruzeiro”, página 51, número 00047, ano 1957).
“Critério adotado para as honras de general na nossa História – Generais por aclamação e por decreto – O Brigadeiro Leandro Bezerra Monteiro e sua atuação na região do Cariri, no sul do Ceará – Uma recompensa imperial de D. Pedro I
O Brasil é um dos poucos países do mundo em que se usa dar honras de general a militares da reserva e mesmo a personalidades civis. Esse hábito não foi gerado no período republicano. Começou, segundo se verá adiante, ainda no Primeiro Reinado. Pode-se afirmar, todavia, que, sendo vulgaríssimo, nas nações latino-americanas, é raro ou quase desconhecido nas europeias. A nossa história militar registra em suas páginas muitos generais honorários que são das mais altas e puras glórias do nosso passado. Ganharam essa honra nos campos de batalha homens como David Canabarro, Andrade Neves, Joca Tavares, Vasco Alves, Vitorino Caneiro Monteiro. Receberam-na, por aclamação popular republicana, Quintino Bocaiúva, Francisco Glicério, Rui Barbosa. Houveram-na, em decretos pelos triunfos políticos, atuando nos prélios revolucionários, Pinheiro Machado, Paim Filho, Flores da Cunha, E até chegou a ser estendida a Floro Bartolomeu, alter ego do Padre Cícero, durante as lutas contra a Coluna Prestes.
Em estudo recente, José Denizard Macedo de Alcântara, dedicado cultor da história cearense, afirma documentalmente que o primeiro brasileiro a receber semelhante honra foi um cearense, “um dos mais distintos e prestimosos varões cratenses que ligaram o seu nome, de maneira indelével, aos acontecimentos de um passado glorioso, que tanto enobrece, orgulha e exalta a cidade do Crato”. Refere-se ao Brigadeiro Leandro Bezerra Monteiro e, ao mesmo tempo, comprova a concessão do título no primeiro reinado.
O eminente cientista e historiador cearense Dias da Rocha, bem como o saudoso Barão de Studart, biografaram o Brigadeiro cratense, que teve acentuado papel nas lutas do Cariri, sobretudo durante as revoluções de 1817 e 1824. Ele (o Brigadeiro Leandro Bezerra Monteiro) e o famigerado José Pereira Filgueiras foram os dois maiores chefes sertanejos daquele tempo. Homem moderado e sensato (O Brigadeiro Leandro), nunca deixou de ser fator ponderável de equilíbrio social, naturalmente defendendo o que se chamava conservadorismo. Denizard põe em relevo essa figura invulgar no cenário do patriarcalismo tradicional do meio-dia cearense, desta sorte: “Os Alencares eram vingativos e impetuosos. Filgueiras, inconsequente e violento. Pinto Madeira exprime a velha rivalidade jardinense contra o Crato, oriunda da elevação daquela localidade (Jardim) à categoria de vila, questão que o nosso século assistiria de novo em relação a Juazeiro. Só Leandro Bezerra Monteiro revela já essa tendência da nossa cultura, da nossa história, como o mais cratense de todos e fadado por isso a melhor simbolizar e exprimir as virtudes da nossa comunidade. Daí sua importância na perspectiva da história cratense, quiçá da sua sociologia”.
Como bom patriarca semifeudal do começo e primeira metade do século passado, o Brigadeiro se cercava da parentela em posições distintas, a começar pelos filhos: Um Coronel-Comandante do Regimento de Cavalaria de Milícias de Crato, outro Tenente-Coronel e outro Sargento-mor ou Major do mesmo corpo; o quarto Capitão-mor das Ordenanças da Vila; um neto, Vigário da Paróquia. Além da riqueza e gado, a família tinha nas mãos as armas e a igreja. Poder temporal e poder espiritual. Daí a sua importância social, o seu valor incontrastável, nesse tempo de categorias pessoais bem demarcadas desde o escravo até os nobres cingindo espada. Além disso, a força da tradição. Gente arraigada ao solo que conquistara, defendera da tapuiada, arroteara, arrastara da selvageria nativa, sobre ele construindo as cercas, as casas de morar, o engenho, espalhando o gado, fixando os moradores, os colonos provenientes das primeiras mestiçagens.
Isto desde os albores da penetração colonizadora, vinda do (Rio) Vaza Barris e do (Rio) São Francisco, pelos vales dos Cariris Velhos e dos Cariris Novos. Daí o apego às instituições seculares com o consequente repúdio a ideias novas, liberais, republicanas, maçônicas, trazidas de outras plagas por indivíduos que não tinham no solo raízes tão profundas. Antagônicos às inovações, o Brigadeiro e sua gente seriam sempre, no meio das agitações políticas e sociais, um rochedo a receber o choque contínuo das vagas.
Nascido a 5 de dezembro de 1740 no engenho Moquém, perto do Crato, Leandro Bezerra Monteiro era filho de Joana Bezerra de Menezes e do Capitão Antônio Pinheiro Lobo. Usava o sobrenome do seu avô materno, o Coronel João Bezerra Monteiro, fazendeiro na região do Icó, de onde se mudara para o Cariri. Diz o Barão de Studart, o que está devidamente comprovado, que era descendente em décimo grau de Diogo Álvares Correia, o Caramuru, e Catarina Álvares, a Paraguaçu. Seu avô paterno, João Pinheiro Lobo, sergipano de origem, faleceu na sua terra natal, onde o futuro Brigadeiro foi aos 20 anos receber a herança da família. Casou em Sergipe com uma parenta, Rosa Josefa do Sacramento, em 1764, filha do Capitão-mor Simeão Teles de Menezes, ali fixando residência e somente regressando ao Ceará 20 anos após, em 1779. Retornou àquela província, em 1823, “44 anos depois, para fugir à sanha dos adversários impiedosos e não se envolver nas lutas fraticidas de 1824, contando já 83 anos de idade provecta, suficiente para desanimar uma viagem a cavalo a tão grande distância”. Dali enviou a D. Pedro I circunstanciado relatório de tudo quanto ocorrera.
Temo-lo, no entanto, de novo no Cariri, quando se pôs o ponto final na revolução, residindo no seu engenho Porteiras, onde até o fim da vida se manteve sempre contrário aos movimentos revolucionários e fechou os olhos para esta vida em 1831, aos 91 anos de idade. Em 1817, com José Vitoriano e João Lobo de Macedo, impusera a bandeira real ao Crato, que os Alencares quiseram sublevar. Em 1822, apoiara a independência e a Monarquia. Em 1824, sofrera a perseguição e o exílio até se desvanecer o sonho republicano de Tristão Gonçalves no combate de Santa Rosa. Então, ao seu filho José Geraldo, preso pelos revolucionários no Recife, informou o General Francisco de Lima e Silva, pai do Duque de Caxias e futuro Regente do Império, quando ocupou a capital pernambucana após a derrota das tropas da Confederação do Equador, que o Imperador ia honrar a fidelidade do velho Leandro Bezerra Monteiro com “a desusada promoção ao posto de brigadeiro, desconhecido até ali na organização das milícias”, o que deve ter sido feito em 1825. Assim, se concedeu o primeiro generalato honorário no Brasil”.
(*) Gustavo Barroso, historiador, advogado, professor, museólogo, político, contista, folclorista, cronista, ensaísta e romancista.
