Em novembro de 2007, há 19 anos, convidado pelo Prof. Francisco Salatiel, estive neste mesmo lugar aonde me encontro agora. Naquela ocasião fiz a apresentação de um livro dele, hoje relançado em segunda edição – contendo a síntese da tese do seu doutorado. Tese denominada de “Joaseiro Celeste”. Nela, Salatiel faz uma comparação entre o lendário título atribuído à cidade de Jerusalém – conhecida, pelos exegetas, como “Jerusalém Celeste” – e o título de “Joaseiro Celeste” que o escritor atribuiu também a Juazeiro do Norte. O que teria levado Francisco Salatiel a fazer essa comparação?
A “Jerusalém Celeste” é a cidade santa e espiritual descrita no último livro da Bíblia, o Apocalipse (capítulos 21 e 22), como sendo, após o Juízo Final, uma representação da morada definitiva de Deus junto à humanidade. Quais as semelhanças e/ou significados levaram Francisco Salatiel – um sério e respeitável filho do Sul do Ceará, nascido na cidade de Araripe – e que deixou na Diocese de Crato a imagem de um culto presbítero, que estudou por muitos anos em Roma?
Salatiel anteviu muitas coisas positivas sobre o Padre Cícero e as Romarias feitas a Juazeiro, bem antes das iniciativas corajosas dos bispos Dom Fernando Panico e Dom Magnus Henrique Lopes, pois ambos os prelados abraçaram o estudo sobre a herança espiritual do Padre Cícero. Julgo eu que, dentre outras semelhanças e significados das romarias feitas a Juazeiro, Salatiel enxergou o que a cidade de Juazeiro do Padre Cícero significa para a espiritualidade católica dos dias atuais, comparando-a com a importância da Jerusalém Celeste do Oriente Médio, esta encravada na região montanhosa da Judeia.
Citemos algumas dessas similitudes entre Juazeiro e Jerusalém:
• Plenitude do Reino de Deus: Simbolizando o fim de todo o sofrimento, da dor, da morte e das lágrimas, marcando a criação de um "novo céu e uma nova terra".
• Comunhão perfeita: Representando a união íntima entre Deus e os seres humanos, frequentemente descrita na Bíblia como a "esposa" ou a "noiva do Cordeiro”.
• A Igreja glorificada: Na tradição cristã, também é vista como a imagem definitiva da Igreja — o povo de Deus reunido e acolhido em sua totalidade, sem distinções de raça, origem ou condição social.
• Arquitetura simbólica: No texto bíblico, a cidade é a própria presença de Deus que a ilumina.
• Inspiração para a vida terrena: Para os fiéis, a Jerusalém celeste serve como um ideal e um ponto de referência espiritual de paz, justiça e comunhão em um mundo marcado por divisões e conflitos. Juazeiro e Jerusalém têm muitas similitudes...
Cabe aqui lembrar algumas palavras que eu disse, na minha apresentação da primeira edição de 2007, do livro de Salatiel. Decorridos quase vinte anos, minhas palavras continuam atualíssimas e, por isso peço vênia para lembrá-las:
“Na abertura do III Terceiro Simpósio Internacional Sobre o Padre Cícero, evento promovido em 2004, pela Universidade Regional do Cariri (URCA) e Diocese de Crato, o então Reitor da URCA, Prof. André Herzog, daqui deste mesmo lugar onde nos encontramos agora, pronunciou, no seu discurso, a frase abaixo:
“Difícil dizer algo sobre o Padre Cícero que não tenha sido dito antes”.
“Pois este livro do Prof. Francisco Salatiel de Alencar Barbosa. “O Joaseiro Celeste”, traz algo que ainda não foi escrito sobre este sacerdote e nem sobre os seus devotos, constituídos, na maioria, por pessoas simples – os chamados “excluídos” – nas definições políticas sobre os rumos de vida das populações sertanejas nordestinas.
“O Prof. Francisco Salatiel é graduado em Filosofia pela Universidade Católica de Salvador. Possui dois mestrados: em Teologia pela Universidade Gregoriana de Roma; e em Exegese Bíblica, feita no Instituto Bíblico dos Jesuítas, da capital da Itália. Seu doutorado foi conquistado com a tese exposta neste livro, ora reapresentado, defendido no Departamento de Antropologia da Universidade Brasília. Salatiel trabalhou no Senado da República, na função de Consultor Legislativo.do qual se encontra aposentado.
“Da leitura deste seu livro Joaseiro Celeste, se depreende a personalidade do Padre Cicero Romão Batista, um hábil e envolvente orador, que numa linguagem simples e acessível às pessoas da sua época, conseguia atingir os corações de todos. Desde o paupérrimo agricultor que trabalhava “de aluguel” para o patrão, até o abastado proprietário rural tão conhecido no Nordeste do século XIX ao início do século XX.
“Suas pregações eram feitas dentro da linguagem popular. Dir-se-ia: numa pregação quase poética, porquanto feitas em forma de expressão oral nascida diretamente do cotidiano, da sensibilidade e da cultura de um povo, transformando uma mensagem espiritual ao verso e à simplicidade da fala comum. Sem nunca ter escrito um folheto sequer, o Patriarca de Juazeiro deixou para a posteridade ensinamentos que ainda hoje são repetidos nas paisagens secas do semiárido da vasta Nação Romeira:
“Quem matou não mate mais;
ninguém tem o direito de matar o seu semelhante.
Quem roubou não roube mais;
Quem rouba vai para o inferno.
Quem mentiu não minta mais;
A mentira é filha do diabo e o mentiroso seu encarregado.”
“E falando na Virgem Maria, ensinava o Padrinho Cícero esta oração:
“Mãe de Deus
Mãe Soberana
Mãe das Dores
De hoje para sempre eu me entrego a Vós
Como filho e como servo;
Consagro ao Vosso serviço a Minh ‘alma
o meu corpo e tudo o que me pertence.
Abençoai a minha família, os meus trabalhos,
os meus haveres; sede minha protetora na vida
e conduzi-me ao Céu para viver feliz
por toda a eternidade. Amém”
“O livro do Prof. Francisco Salatiel nos transporta ao imaginário dos peregrinos que vêm ao Joaseiro Celeste, numa comovente demonstração da fé popular fazendo do Cariri uma cidade-santuário como Jerusalém”.
(até aqui transcrevi trechos da minha apresentação feita em 2007)
Hoje, posso afirmar – com absoluta convicção – que a causa da herança espiritual, social e histórica do Padre Cícero só fez progredir de 2007 (quando este livro foi lançado) até os dias atuais.
O Prof. Francisco Salatiel foi um visionário!
Com efeito, Dom Fernando Panico obteve a vitória de ver a reconciliação da herança do Padre Cícero com a hierarquia e clero da Igreja Católica. Avançando nesta histórica causa, logo após sua chegada ao Cariri, em fevereiro de 2022, o 7º Bispo de Crato, Dom Magnus Henrique Lopes reivindicou e foi atendido, em agosto de 2022, recebendo o “Nihil Obstat” – documento da Santa Sé que autoriza oficialmente a abertura de uma causa de beatificação. Missão que a Diocese de Crato cumpriu no âmbito diocesano, porquanto foi concluída e já entregue ao Vaticano, onde se encontra em análise no Dicastério para as Causas dos Santos.
Caberá, pois, a esse Dicastério, órgão do Vaticano, responsável pela análise dos pedidos de canonização, dar a palavra final sobre os trabalhos desta primeira e importantíssima etapa, rumo à beatificação do Padre Cícero. Resta-nos tão somente aguardar a decisão do Vaticano. Nos páramos da eternidade, onde se encontra agora, Francisco Salatiel aguarda o desenrolar dos acontecimentos terrestres, consciente de que anteviu – com bastante antecedência – o desenvolvimento e progresso da Causa em prol do Padre Cícero.
Muito obrigado.
(Palavras proferidas em 09 de outubro de 2026, às 19h. no Memorial Padre Cícero, na festa de lançamento da 2ª edição do livro Joaseiro Celeste)













.jpeg)




