sábado, 11 de julho de 2026

Dr. Leandro Bezerra Monteiro, o cratense que defendeu Dom Vital -- por Armando Lopes Rafael

 “Um padre que não é santo, não é somente  inútil, mas  prejudicial para o mundo;   o  padre santo torna o povo santo”  (Papa São Pio X).

Neste 11 de junho comemoramos o bicentenário de  nascimento do Dr. Leandro Bezerra Monteiro

Dom Frei Vital Maria Gonçalves de Oliveira foi a figura central da chamada “Questão Religiosa”, fato marcante na história do Brasil. Um bispo santo!

Como foi esse quiproquó 

      Desde o século XVIII a Igreja Católica Apostólica Romana desaprovava seus fiéis a se filiarem à Maçonaria.  E desde 24 de abril de 1738 – através da encíclica “In Eminenti” – o Papa Clemente XII condenou explicitamente a Maçonaria. Por outro lado, a Constituição de 1824 – a primeira do Brasil independente, que vigorou até 15 de novembro de 1889, data do golpe militar que implantou a República – estabeleceu a Igreja Católica como a religião oficial do Império do Brasil. E concedeu ao Imperador o direito de indicar o preenchimento dos cargos eclesiásticos nas doze dioceses então existentes no Brasil. Ao monarca era outorgado, também, o chamado “direito ao beneplácito”, mais conhecido como “Padroado”. Este, facultava ao Imperador aprovar – ou não – as instruções e bulas vindas do Vaticano. Já os padres católicos brasileiros, àquela época, eram considerados “funcionários públicos”, pois recebiam seus salários do tesouro nacional. 

   Nos períodos do Brasil Colonial e Brasil Imperial não era raro um sacerdote se filiar à Maçonaria. Ao assumir a Diocese de Olinda, em 22 de maio de 1872, o frade capuchinho Dom Frei Vital Maria Gonçalves de Oliveira, então com 28 anos de idade, encontrou padres e fiéis participando ativamente da Maçonaria. Alguns administravam até irmandades católicas daquela diocese.

     Com muita paternidade, Dom Vital pediu a esses para se desligarem da Maçonaria. Alguns atenderam. Outros, não. Esses últimos chegaram a publicar – nos jornais de Recife – suas recusas ao apelo do bispo. Por conta disso, Dom Vital teve de adotar medidas coercitivas, afastando os fiéis maçons que comandavam as irmandades religiosas recifenses. E fê-lo com muita prudência e humildade. Todavia isso seria o início do movimento que passou à história do Brasil como “A Questão Religiosa”. Esta, se constituiu, na nossa nação, em mais um reflexo da confrontação verificada na Europa entre a Maçonaria e a Igreja Católica Romana.   O Conselho de Ministros do Império do Brasil, composto em sua maioria por maçons, considerou a iniciativa de Dom Vital como uma “desobediência” ao Padroado. Mais do que isso. A decisão do bispo foi vista como “um enfrentamento” ao Governo Imperial. 

            Para ampliar a repercussão do fato, Dom Vital recebeu o apoio do Bispo do Pará, Dom Antônio de Macedo Costa. Ambos agiram estritamente na esfera espiritual, sem qualquer ingerência nos assuntos do governo brasileiro.  Em 1873 esse “quiproquó” atingiu seu auge. O Conselho de Ministros temendo que o exemplo dos dois bispos se espalhasse pelas demais dioceses do Brasil mandou prender e processá-los e prendê-los. A ordem partiu do Primeiro Ministro, Visconde do Rio Branco, coincidentemente Grão Mestre da Maçonaria do Rio de Janeiro. Dom Vital e Dom Macedo foram condenados a cumprir pena de quatro anos de trabalhos forçados.  Os protestos contra essas prisões repercutiram na opinião pública do país. E se espalharam como um rastilho de pólvora junto à população brasileira...

Um cratense participou desses protestos

   Deputado Geral (correspondente hoje a Deputado Federal), o advogado Leandro Bezerra Monteiro nasceu em Crato em 11 de junho de 1826. Era neto do legendário Brigadeiro Leandro Bezerra Monteiro, patriarca do clã Bezerra de Menezes no Cariri cearense. Dr. Leandro herdou, por inteiro, não só o nome, mas as convicções religiosas e cívicas do avô. O deputado Leandro, monarquista convicto, venerava sinceramente a pessoa do Imperador Dom Pedro II. Reconhecia neste o “Defensor Perpétuo e o Pai da Pátria”. Fazia coro ao dito popular:  Ao Rei tudo! Menos a honra ou manchar a consciência como um católico fidelíssimo.

   E isso foi colocado à prova quando o advogado Leandro exercia o segundo mandato de Deputado Geral, pela Província de Sergipe del Rey. Na defesa dos bispos, o deputado proferiu discursos na mais alta tribuna do Parlamento do Império. E escreveu artigos – publicados nos jornais do Rio de Janeiro e reproduzidos na imprensa das províncias e até no exterior. Em Portugal, o Padre Senna Freitas, conhecido literato e polemista, publicou um livro – Escritos Católicos de Ontem – onde reproduziu e comentou um discurso pronunciado por Leandro Bezerra Monteiro em defesa dos dois bispos.

    Com desassombro o Deputado Leandro enfrentou o Visconde do Rio Branco e seu ministério. Segundo José Bonifácio de Sousa, autor do opúsculo “Leandro Bezerra Monteiro”, publicado pela Tipografia Minerva, de Fortaleza, em 1945:

    "A atuação de Leandro Bezerra Monteiro na malfadada questão teve, desde o início, uma evidência muito honrosa: num parlamento composto de algumas centenas de membros que haviam jurado defender a fé católica como religião do Estado, apenas ele e mais dois ou três deputados souberam honrar esse juramento.

     Honrou-o combatendo com veemência a perseguição desencadeada contra os diocesanos de Olinda e do Pará, tornando-se, então o legítimo representante não apenas de uma minúscula província (Sergipe), mas da consciência católica de toda a Nação. Foi além. Estigmatizou o erro, mostrou as suas funestas consequências, apontou e denunciou os responsáveis". (Sousa, 1945, 15). (Grifos meus).

    Já o frade capuchinho Frei Felix de Olívola, no seu livro “Dom Vital – O Atanásio Brasileiro” – cuja primeira edição foi lançada em 1944 – escreveu que o Parlamento do Império começou a receber petições vindas das províncias brasileiras pedindo a libertação dos dois bispos prisioneiros. Minas Gerais foi a campeão dessas petições: 51.129 assinaturas vieram de lá. Em segundo lugar destacou-se a Província do Ceará, com 31.325 pedidos pela libertação dos prelados.

   "Do Ceará foi enviada uma outra (a segunda) petição com 5.134 assinaturas, onde era apresentada denúncia contra os ministros Visconde do Rio Branco, Dr. João Alfredo Corrêa de Oliveira e o Visconde de Caravelas como incursos no crime de traição à religião do Estado conjuntamente ao de suborno. Esta petição foi apresentada no Parlamento pelo Dr. Leandro Bezerra Monteiro, deputado por Sergipe. Ligeiramente examinada por três maçons, foi ela não somente rejeitada, mas também queriam transformá-la em triunfo da maçonaria". (Olívola, 2020, 114-115). (grifo meu).

    Essas petições pela soltura dos bispos também foram alvo dos comentários do historiador José Bonifácio de Sousa, no opúsculo “Leandro Bezerra Monteiro” já citado:

    "O ponto culminante da ação parlamentar de Leandro Bezerra Monteiro está precisamente na denúncia que “pelo crime de maquinarem a destruição da religião do Estado”, apresentou à Câmara, em sessão de 2 de setembro de 1874, contra o Visconde do Rio Branco, o Conselheiro João Alfredo e o Visconde de Caravelas, respectivamente Presidente do Conselho e ministros do Império e dos Negócios Estrangeiros." (SOUSA, 1945, 17-18).

   Ainda sobre a atuação do Deputado Leandro Bezerra Monteiro, assim se expressou o primeiro Bispo do Ceará, Dom Luís Antônio dos Santos, em carta dirigida àquele parlamentar, com data de 29/05/1873:

Se mais nada fizesse V. Excia., nesse lugar honroso, bastava o que já tem feito para constituí-lo um dos mais distintos deputados da nação, e como tal com indisputável direito aos sufrágios daqueles seus concidadãos dotados de boa vontade e à gratidão de todo o episcopado brasileiro. Da minha parte, considerando V. Excia. benemérito da Igreja, felicito V. Excia. e rendo-lhe os bens merecidos agradecimentos. (Sousa, 1945, 46).

   Dr. Leandro Bezerra Monteiro pagou um preço elevado por sua lealdade à Igreja Católica. A reação imprevisível do Conselho de Ministros do governo Imperial; a deslealdade de alguns colegas de Parlamento e a pusilanimidade de alguns correligionários, levou o deputado a desiludir-se com a vida pública.  Depois da anistia concedida aos bispos, pelo novo Primeiro Ministro do Império, o Duque de Caxias (atendendo aos apelos da Princesa Isabel, quando exercia a Regência interina do Império), Dr. Leandro retornou às suas atividades de advogado. Dedicou então seu tempo à criação e administração – na cidade de Paraíba do Sul-RJ – de instituições filantrópicas, voltadas ao amparo de pessoas carentes e fragilizadas.   

     No dia 15 de novembro de 1889, ocorreu o golpe militar, comandando pelo Marechal Deodoro, extinguindo a monarquia e banindo a Família Imperial para a Europa.  Depois desse golpe, Dr. Leandro abandonou, de vez, sua carreira política.

   O ocaso de uma bela existência

   Dr. Leandro Bezerra Monteiro findou a exemplar existência terrena em 15 de novembro de 1911, aos 85 anos, 5 meses e 4 dias de idade. Faleceu no bairro Fonseca, em Niterói. Sobre sua morte, assim a descreveu um dos seus filhos, em carta a um amigo da família:

Niterói, 27 de novembro de 1911. 

Meu caro Dr. Felício dos Santos: 

Venho agradecer-lhe as belas e sentidas palavras da Pátria Brasileira sobre meu pai, o Dr. Leandro Bezerra Monteiro, falecido no dia 15 na paz do Senhor. Morreu como um santo, tendo se confessado e comungado há pouco tempo, sempre rezando, meditando e ensinando, até à última hora, a religião a um sem número de crianças. 

Pela manhã leu, como de costume, depois de rezar suas orações e o rosário, a vida do santo do dia dos Bolandistas, a sua Imitação (I iv. IV, cap. III) e Pioger, a Deus! depois, escreveu várias cartas, sendo a última para o Padre Cícero, e por fim, foi para a sala de jantar, deitando-se na rede, onde ainda tomou o seu café do meio dia, conversou com os filhos e veio a morrer (de uma síncope cardíaca) há l/4 da tarde, lendo a descrição da sepultura de Jacob em Pierre Loti— Jerusalém (pág. 18), cercado de pombos, que ele criava dentro de casa, e aos quais estava dando comida. 

Minha mana Leonor teve ainda tempo de rezar em voz alta o ato de contrição, e fazê-lo beijar um crucifixo dado pelo bispo do Pará Dom Antônio de Macedo Costa, mandado fazer especialmente em Jerusalém, e bento por Pio IX, com indulgência plenária da boa morte. Ele era recebido (na Ordem) do Escapulário do Carmo e em outras (ordens), e com todas morreu. Diariamente visitavam-no os ótimos frades franciscanos, seus confessores, e uma vez por mês um deles dizia missa em casa, por não poder meu pai ir ouvi-la fora (em S. Lourenço).

 O enterro dele foi uma procissão, abalando uma multidão enorme e para mais de 200 crianças —meninos e meninas — que o amavam de coração. Conservou sempre perfeitas e apuradíssimas todas as faculdades. Sua memória era extraordinária. E assim se terminou o meu queridíssimo pai, como um verdadeiro santo — grande defensor dos bispos na questão religiosa, protótipo da caridade, apóstolo da infância, fundador da Casa de Caridade e Asilo de N. S. da Piedade da Paraíba do Sul, amigo dos jesuítas e irmãs vicentinas, e fervorosíssimo católico. Inclusas vão umas cópias para o seu jornal, se servirem. A “Revista da Semana” traz o retrato do meu santo. 

Cronologia

1826 – Em 11 de junho, nasce Dr. Leandro Bezerra Monteiro na cidade de Crato (CE).

1847 - Inicia o curso de Ciências Sociais e Jurídicas, na Academia de Direito de Pernambuco, com vinte anos de idade.

1851 – Recebe o título de Bacharel, aos vinte e cinco anos de idade. 

1852 – Fixa residência na Provincia de Sergipe del Rey, onde se casa, em 31 de janeiro, com uma parenta, Emerenciana de Siqueira Maciel Bezerra.

1860 – Eleito deputado geral (hoje deputado federal), por Sergipe, mandato interrompido em 1863 por dissolução da Câmara. 

1864 – Fixa residência na cidade de Paraíba do Sul, estado do Rio de Janeiro.

1872 – Eleito, mais uma vez, Deputado Geral por Sergipe. Nessa legislatura ganha destaque nacional pela defesa que faz dos bispos de Olinda, Dom Frei Vital Maria Gonçalves de Oliveira e do Pará, Dom Antônio Macedo Costa, processados e presos pelo Governo Imperial.

1877 – Eleito, novamente, deputado geral, agora pelo Ceará, mandato interrompido em 1878 pela ascensão do Partido Liberal.

1880 – Em 31 de julho é iniciada construção da Casa de Caridade de Paraíba do Sul, que foi concluída e inaugurada em 4 de abril de 1883.

1889 – No dia 15 de novembro um golpe militar, comandando pelo Marechal Deodoro, derruba do trono o Imperador Dom Pedro II e instaura a forma de governo republicana no Brasil. Desgostoso com isso, Dr. Leandro abandona definitivamente as atividades políticas.

1911 – No dia 15 de novembro morre no bairro Fonseca, em Niterói.    

(*) Armando Lopes Rafael é historiador. Sócio do Instituto Cultural do Cariri e Membro-Correspondente da Academia de Letras e Artes Mater Salvatoris, de Salvador (BA).

Fontes de Consulta

OLÍVOLA,  Frei Félix OFMCap. Dom Vital, o Atanásio Brsileiro. Castela Editorial, São Paulo (SP), 2020. 

PEREIRA,  Nilo. Dom Vital e a Questão Religiosa no Brasil. Imprensa Universitária, Recife (PE), 1966.

RAFAEL,  Armando Lopes. Algumas Reminiscências do Cariri. Editora A Provincia. Crato (CE), 2020.

¬_______________________ Dr. Leandro Bezerra Monteiro– Centenário de Falecimento. (1911-2011¬) opúsculo publicado pelo autor. Oficina Gráfica São Geraldo.Crato (CE) 2011.

SOUSA, José Bonifácio de. Leandro Bezerra Monteiro. Tipografia Minerva. Fortaleza (CE, 1945.


Pesquisas na Internet

https://pt.wikipedia.org/wiki/Leandro_Bezerra_Monteiro  - Consulta feita em 06 de novembro de 2023.